Das RUAS para sua parede – indo além da duck face

 

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Grafite “Baleia” do artista Rica de Lucca

 

Por Will, co-idealizador do Arte Viralata

“Das ruas para sua parede”. Das ruas para sua parede? Por quê? Só porque saiu das ruas para a minha parede, você também precisa levar para a sua? Sai pra lá, deixa a arte na rua. A arte é livre e nas ruas ela evolui mais rápido. Uma árvore pode crescer e compor melhor com aquela mandala indígena psicodélica. Um grafite hoje pode não estar por lá amanhã, vai que o velhinho ranzinza da esquina mandou apagar. Um tucano, representante da fauna brasileira, pode ceder seu bico para ser alterado para um braço mecânico segurando um buquê de girassóis azulados em questões de minutos. A estética é livre, infinita e mutante. Ela protesta, é irônica e dificilmente vai passar desapercebida. O que importa é que vai te impactar, se já não impactou.

Aproveita então e tira logo aquela foto para postar no Instagram. Eterniza a arte daquele artista que você nem conhece, mas que vai gerar bastante likes. Faz melhor, vai para frente do muro e tira aquele selfie fazendo duck face. Não esquece de usar o pau de selfie pra pegar mais arte do que pato.

Ser artista é foda. Se já é difícil ser artista na gringa, imagina então no Brasil, onde tudo já vem naturalmente com dificuldade nível hard. Mas peraí! E se você é um pouquinho como eu? Que admira o trabalho dos caras que superam adversidades mil para exporem sua arte para o mundo. Que não se prendem a pré-conceitos, estilos ou técnicas para se expressarem. Se você é minimamente assim será que não vale a pena ir além da foto cheia de efeito e saturação nas redes sociais? Será que não vale reconhecer que por trás de um grafite espetacular que te chamou a atenção, tem um coração pulsante que bateria acelerado sabendo que aquilo fisgou o seu olhar?

Que tal então repensar o “das ruas para sua parede”? Acho que pode ser uma boa. Pensa bem e faz o seguinte: Escolha sua arte, veja quem é o artista por trás, pense nele, tente visualizar o que ele estava imaginando ao produzir aquela obra e pendure com orgulho na sua parede. Compartilhar na sua casa diz mais sobre você do que no mundo online. Pode ter certeza que assim você estará ajudando muita gente a realizar sonhos, e o melhor: vai trazer energia e vida para aquela sua parede esquecidinha.

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Tela Original “Baleia” do Artista Rica de Lucca.

Sobre o bizarro, o sublime e a eternidade – a genialidade inapagável de R.Hora

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Raphael Hora – R.Hora. O inesquecível “Tuba”, para os mais chegados.

É tão natural quanto o fato de a Terra ser redonda, dizer que Raphael era dotado de um talento genial – apesar de, infelizmente, não tê-lo conhecido. Como toda galeria de arte, nós, vira-latas, também temos um processo de curadoria que envolve a busca por novos artistas. Neste caso, foi o Raphael que chegou até nós, através da indicação de uma grande amiga em comum. Segundo nossa humilde opinião, esta é a maior prova de que seu legado, sua personalidade e toda a sua trajetória, regalaram-lhe o poder da eternidade. Ao ver suas obras pela primeira vez, ficamos embasbacados -não há outra palavra que descreva melhor a nossa reação.

Desta vez, quem conta a história do artista, é alguém que o conhecia provavelmente melhor do que ninguém – e que é também, possivelmente, uma das melhores pessoas que nós conhecemos – seu irmão, a gentileza em pessoa, Pedro Staite:

Raphael Staite da Hora, ou R.Hora, nasceu em 1985, no Rio de Janeiro – cidade onde passou a vida toda. É difícil precisar o momento em que começou a se dedicar ao desenho, porque ele sempre foi visto desenhando (desde as séries mais pueris do colégio, ou em casa, no trabalho, no ônibus, no bar, em qualquer lugar). Era muito comum, por exemplo, ele travar longas conversas com alguém, mas sempre olhando para o caderno, desenhando casualmente alguma coisa que ficaria absurda e surpreenderia o interlocutor.
Considerando o nosso método bolorento de aferição de aprendizagem, Raphael sempre foi um péssimo aluno, pois destinava sua genialidade para o que infelizmente a escola ignora. Mostrava-se aos poucos um talento que crescia com um nível extraordinariamente constante. Ele cresceu até o fim.

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Coruja

Embora nunca tenha se dedicado a algum curso formal de arte, Raphael sempre se interessou em aprender ― às vezes com amigos, às vezes na marra ― novas técnicas e a enriquecer o próprio estofo com novas referências. Cursou desenho industrial na faculdade e trabalhou como designer e ilustrador em diversas agências do Rio de Janeiro.

Concomitantemente ao trabalho, Raphael continuava a refinar seu estilo e a produzir. Ele sempre foi fortemente influenciado pelas artes das cartas de baralho e pelo visual predominante entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Era comum também recorrer a animais ― elefantes, cervos, besouros e, sobretudo, raposas ― em seus desenhos. Boa parte de suas ilustrações contém uma dualidade marcante: é difícil, por exemplo, conferir fofura a um cervo antropomórfico embriagado e com o coração exposto, mas ele conseguia. O bizarro e o sublime (ou o parente mais habitual, o tragicômico) costumava ter espaço em suas obras, como se fosse um aviso de que, se o mundo está bonito demais para alguém, esse alguém está enxergando o mundo com uma boa vontade entorpecedora.

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Boxe

As obras expostas no Arte Viralata foram feitas em nanquim sobre papel e depois coloridas e finalizadas digitalmente. Esse foi o processo predominante nos últimos anos de sua vida, interrompida tragicamente em virtude de um suicídio. Ele saiu dessa nossa festa horrível e maravilhosa aos 29 anos, e uma das especulações mais óbvias que rondam sua memória é a de que, em muito pouco tempo, teríamos um gigante artístico por perto. Claros sinais de sua grandeza, por sorte nossa, estão espalhadas por aí.

 

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Muito além do que os olhos podem ver

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…e é neste clima de arte urbana argentina que temos o orgulho de apresentar outro grande talento integrante do projeto Arte Viralata: Henry Peyloubet.

Nascido na pequena cidade de Pilar, na província de Buenos Aires, Henry teve a sorte de crescer e se desenvolver em um berço particular de arte. Filho de artistas plásticos, trabalhou desde a infância até a adolescência no ateliê de seu pai – que além de artista, também era ourives.

Ao completar 18 anos, juntou suas coisas e mudou-se para Florianópolis – lugar de onde nunca mais saiu.

Com o falecimento de seu pai, seu coração foi tomado por nuances de preto e branco – o que fez com que seu interesse pela arte ficasse adormecido durante muitos anos. No entanto, em um processo quase que natural, começou a sentir a necessidade de externar e expressar aquilo que o vinha consumindo.

Foi quando logo após o rompimento de um intenso relacionamento, deu-se o surgimento de uma faísca que logo acenderia um fogo difícil de ser apagado – e sem planejar absolutamente nada, aos 24 anos começaram a surgir os primeiros rabiscos. Logo em seguida, veio a experimentação de novos materiais como aquarela e nanquim, até chegar na tinta acrílica e no spray.

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“As minhas obras retratam meu mundo, minhas relações, as mulheres que passam na minha vida. Contam meus amores e desamores, por tudo que me apaixonei e tudo que de alguma forma me tocou” – ressalta.

Atualmente Henry é designer e jogador de hóquei sobre grama – contudo, para nossa alegria, seus laços com a arte seguem estreitando-se cada vez mais:

“A arte para mim é o momento, o processo, onde coloco tudo pra fora, independente do resultado e da estética. Sempre estou contando alguma estória, algo que está me apertando o peito, ou fazendo ele bater mais forte. É um processo de total libertação e intimidade”.

Dotado de uma sensibilidade aguçada e de sentimentos intensos, ele busca transmitir todo seu turbilhão de emoções através de sua arte:

“Costumam ficar resquícios do processo nas pinceladas, na força, ou no movimento que as cores propõem. É a forma que tenho de capturar aquilo que é invisível aos olhos. Procuro expressar o lado mais sensível e dramático do ser”.

A técnica preferida do nosso argentino manezinho é o nanquim, de traços soltos, livres, sem a possibilidade de correção – embora ultimamente venha utilizando também tintas acrílicas e spray. Na maioria de suas obras, podemos encontrar tons contrastantes e vibrantes, rostos femininos com grandes olhos e olhares cortantes, daqueles que parecem fitar diretamente quem os contempla.

“A arte diz quem sou, fala mais de mim do que eu mesmo, com minhas limitadas palavras. Não imagino uma vida sem arte. Ela é a linguagem da alma”.

Quando o assunto é a inspiração, ele diz que ela vem das pessoas, do que elas o fazem sentir, ou no que ele consegue enxergar através dos olhos delas – na beleza de algumas lágrimas e também no peso que estas pessoas carregam.

Henry também canaliza toda a sua sensibilidade para causas do bem, altamente relevantes para a transformação da sociedade. Ele também participa do projeto Cidades Invisíveis, que disponibiliza a venda de produtos personalizados por diversos artistas – e cuja renda obtida é revertida para benfeitorias em diversas comunidades locais.

Conheça, abaixo algumas de suas obras. Gostou? Então vem, porque todas elas estão disponíveis aqui.

Buenos Aires e buenos grafittis – você já ouviu falar da grafittimundo?

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Com a alta do dólar está ficando difícil para qualquer brasileiro que se preze, viajar para fora do continente. Bem, pelo menos por enquanto.

Uma boa opção para quem aprecia a boa gastronomia, arquitetura, futebol e – quem diria – street art, é fazer as trouxinhas e se jogar em Buenos Aires. Além de ser um dos berços culturais da América Latina, a capital dos hermanos leva muito a sério o tema da arte urbana.

Foi lá que nasceu o projeto grafittimundo – assim mesmo, tudo junto e com letras minúsculas, embora de minúscula esta iniciativa não tenha absolutamente nada.

Trata-se de uma organização sem fins lucrativos dedicada ao apoio e à promoção do cenário local de arte urbana e dos esforços individuais de seus artistas. Além de oficinas e exposições, a grafittimundo promove tours de grafitti pela capital argentina. É praticamente como visitar um museu a céu aberto, onde além de contemplar a cena de street art local, as pessoas conhecem mais da cidade, sem ter que enfrentar as copiosas filas e os detectores de metais dos museus tradicionais.

Os tours estão disponíveis para agendamento em espanhol ou inglês e os preços vão de 25 dólares por pessoa, até 95 dólares para um grupo mínimo de 2 pessoas. Há diversos estilos de passeio, passando por diferentes itinerários. Tem até uma modalidade onde a visitação é sobre duas rodas. Além da guia turística, eles fornecem as bikes, capacetes e água para quem quiser se aventurar. Demais, né?

Caso queira conhecer melhor o projeto, é só clicar aqui. Deu a louca? Quer uma passagem para Buenos Aires agora? Então clique aqui também e boa viagem!

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Aquarelas, mandalas e good vibes. Conheça um pouco mais sobre a Jacque López.

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Nascida e criada em Floripa e no auge de seus 28 anos, Jacque divide seu tempo com maestria entre sua profissão, a arte e o auto-conhecimento – seja através da prática do yoga ou se perdendo entre um mundaréu de livros ao mesmo tempo. “Acredito que se a gente praticar o bem, recebemos em troca. A vida nos presenteia a toda hora só precisamos estar atentos a essas maravilhas”, diz ela.

A iniciação de Jacque no mundo da arte começou sem muita pretensão, quando ela já trabalhava como publicitária na área de direção de arte, achando que nunca realmente estava “criando” algo significativo, como a arte por si própria.

Pelo fato de estar rodeada por ilustradores, começou a rabiscar aos poucos, mas sempre com muita auto crítica. “Acho que por isso demorei tanto tempo para realmente me dedicar, é o grande medo do homem: falhar. Mas certo dia entendi que na arte não existe isso, a arte é única. Não há certo e errado”, diz. A partir do momento em que ela internalizou este pensamento, surgiu a vontade de experimentar, crescer e se desenvolver. Ela gosta de dizer que a sua arte vem do coração, já que não possui formação artística acadêmica.

“Eu gosto de artes fluidas e mandalas. Eventualmente testo personagens e animais, mas eu me sinto mais a vontade quando faço artes com fundos abstratos e mandalas. No entanto, todas elas tem um ponto em comum: são todas com sentimentos bons e cores suaves. Gosto de despertar um sentimento bom em quem olha, a ideia é provocar uma sensação agradável. Por isso raramente pinto quando estou triste. Acho que isso passa para a pintura”. Não tem nem o que dizer, né, gente?

Através da aquarela com nanquim, e às vezes da tinta acrílica, ela expressa toda a sua candura, positividade, espiritualidade, a fluidez da vida e o amor pela natureza.

Como se tudo isso não fosse lindo o suficiente, Jacque também participa do projeto Cidades Invisíveis, que conta com o envolvimento de variados artistas na criação de produtos cuja renda adquirida é revertida para ajudar diversas comunidades.

Confira abaixo algumas obras da Jacque que estão a venda no arteviralata.

Como tudo começou

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Impossível falar do nascimento do projeto sem mencionar a nossa mudança de postura em relação a vida e ao trabalho. Nascidos e criados no Rio, sempre fomos, mesmo antes de sermos casados, os típicos funcionários exemplares, trabalhadores incansáveis, trabalhando em empresas excelentes e de dar inveja. Somos dois filhos únicos que foram carinhosamente programados para serem alguém na vida, cada um em seu campo. Em 2012 fomos morar em Santiago, no Chile, e após quase 3 anos, quando retornamos ao Rio de Janeiro – e após quase um ano de readaptação – vimos que estávamos esgotados. Vivendo para trabalhar, sempre entregando mais horas do que deveríamos, mais energia do que de fato tínhamos, esperando pelo fim de semana e pelas curtas férias para erguer a cabeça na superfície, dar aquela respirada intensa, para logo se preparar novamente para o longo mergulho na rotina sufocante que viria pela frente.

Durante este período aprendemos muito, mas estávamos realmente desanimados. Faltava energia e tempo para fazer coisas que realmente gostávamos, coisas nossas e para nós. E todos os planos de mudança nesse panorama ficavam no campo das ideias. Graças a insistência do Will e a um pouquinho de planejamento financeiro, conseguimos sair da zona de conforto e demos a todos o furo de reportagem de que iríamos nos mudar novamente. Desta vez para Floripa. Precisávamos de um pouco de magia para recomeçar.

O tempo livre e a natureza da ilha deram espaço para ideias e para a criatividade, que acabou culminando entre outras coisas, na concepção do Arte Viralata. Sempre fomos admiradores de street art, nossas paredes viviam decoradas com quadros de artistas urbanos – embora tenha sido um pouco difícil conseguir obras nesse estilo. Foi aí que a ficha caiu, e pensamos: por que não tornar esse link mais fácil? Por que não ajudar a levar essa arte para dentro da casa de outras pessoas que não sabem como adquiri-las, de uma maneira descomplicada e mais acessível?

A partir dai nasceu o projeto Arte Viralata, que tem como missão possibilitar que a arte de rua brasileira seja levada às paredes das casas, com valorização do talento de cada artista envolvido. Pra dar aquele confere, é só clicar aqui

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